Quando a arte encontra o outro

Tom Jobim, em uma de suas canções mais populares, Wave, disse:

“Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho.”

Embora esse seja um ponto que leve a diversos debates, justamente porque amar o próximo como a si mesmo requer um amor pessoal saudável e resolvido, é a partir desse lugar que podemos amar o outro e construir um olhar mais humano sobre a sociedade.

A coletividade é um assunto que me atravessa há muito tempo.

Em muitos ambientes artísticos, a competição é estabelecida e incentivada: a busca pelos prêmios, pelas posições, pelos olhares, pelos papéis e pelos destaques. Embora essa seja uma realidade, ainda é algo complexo para mim, porque não consigo enxergar a arte como um espaço de disputa, mas como um lugar de partilha.

Costumo dizer que, mesmo quando fazemos um monólogo, um solo vocal, um solo de dança ou de instrumento, aquela experiência passa primeiro pelo artista e, depois, ele a entrega. A arte não termina em quem faz, mas na troca entre entregar, receber e compartilhar.

Por isso, esse lugar do coletivo é tão poderoso.

O coletivo tem ligação direta com o princípio de amar o próximo. É claro que precisamos ser inteiros por nós mesmos, mas a troca também nos amplia. Com o outro, podemos ampliar nossa concepção e nossa visão sobre o diferente, o macro e o diverso.

Não conseguiríamos viver em um mundo de uma pessoa só. Vivemos nas relações, nas trocas, nos encontros e também nas diferenças. E a arte, com sua capacidade de clarear o olhar, mudar concepções, denunciar, provocar e existir para além de si, torna esse encontro ainda mais enriquecedor.

Na arte, há uma festa no compartilhar e no partilhar, quando os corações se alinham na torcida, no respeito, no reconhecimento e no acolhimento. Um a um, nós nos afinamos nesse encontro.

Esse enlace de criatividades forma o todo. Gera beleza, empatia, cordialidade, respeito e admiração.

Compartilhar conhecimentos, ideias e dúvidas sempre pode agregar valor ao outro.

Mas é preciso estar atento para que a arte não se transforme em um artifício de competição, guerra e ambição. Quando isso acontece, toda a beleza se esvai. O que era colorido pode se tornar cinza, oco e raso.

Sempre haverá alguém que pode contribuir para que o nosso avanço seja maior. Por isso, é importante permitir-se aprender e também ensinar. É uma troca.

Um bom exemplo de coletividade está no canto em coro, nas companhias de dança e teatro, nas bandas e nas orquestras. São trabalhos que exigem disciplina, senso de unidade e o encontro entre múltiplos talentos, vivências, tons e sons. Cada elemento participa da construção de algo que não seria realizado sozinho da mesma maneira.

Para mim, a arte não deveria nos colocar contra o outro, mas com o outro.

Porque, na arte, o prazer não está em ser melhor DO que o outro, mas em ser melhor COM o outro.

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